Crítica: Scott Pilgrim Contra o Mundo

A melhor fase do cinema em quadrinhos 8 bits

04 de Novembro de 2010


Scott Pilgrim Contra o Mundo

Scott Pilgrim versus the World
EUA, Inglaterra, Canadá , 2010 - 112 min.
Ação / Comédia
Direção:
Edgar Wright
Roteiro:
Edgar Wright, Michael Bacall,
Brian Lee O'Malley
Elenco:
Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead,
Brandon Routh, Jason Schwartzman,
Aubrey Plaza, Kieran Culkin, Brie Larson,
Mae Whitman, Ellen Wong, Anna Kendrick,
Mark Webber, Alison Pill, Satya Bhabha
Scott Pilgrim
Scott Pilgrim
Scott Pilgrim
Ramona Flowers
Para o quadrinista Bryan Lee O'Malley e o cineasta Edgar Wright, a vida acontece em fases. Mas não aquelas fases das aulas de biologia, infância, adolescência etc. Em Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim Versus the World, 2010), a vida acontece em fases como as dos videogames.
É curioso que a melhor adaptação já feita para o cinema de um videogame não tenha existido previamente como um jogo. Wright leva a estética dos games às telas, traduzindo em cores e gráficos toda uma geração de títulos clássicos em uma verdadeira celebração do "8 bits". Scott Pilgrim (Michael Cera, fazendo a única coisa que sabe) é inocente como Mario, luta como Ryu e tem mais corações que Link. Parte do visual criado aproveita também a origem de Scott Pilgrim nos quadrinhos, incluindo onomatopeias, recordatórios em quadro e influências de mangá.
Mas é explorando as barreiras da linguagem do cinema, com raro e frenético entusiasmo, que o filme realmente explode na tela. Wright pensa o "cinema em quadrinhos" experimentando na edição, velocíssima, e dando à produção algumas das elipses mais chocantes e concisas do cinema desde que Fritz Lang se aventurou pela interseção de tempos. É curioso notar também como a manipulação de espaço e tempo para contar uma história, interesse fundamental da profissão de montador, é aqui ferramenta, mise en scène e tema, com Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), a protagonista e interesse romântico do herói Scott Pilgrim, capaz de encontrar e utilizar "buracos de minhoca" para se locomover, algo que ela usa de forma tão cotidiana, como entregadora da loja canadense da Amazon.
Mais que um interesse romântico, Ramona é verdadeiro MacGuffin, o objeto de desejo que, segundo o termo cunhado por Alfred Hitchcock, direciona os esforços dos protagonistas, que se sacrificam para obtê-los. Na trama, Scott Pilgrim é movido pela presença da enigmática Ramona e decide enfrentar os "sete ex-namorados do mal" da moça mesmo sem saber quem exatamente ela é.
Como nos videogames, cada ex-namorado é uma fase a ser superada. Como na vida real, cada memória do outro é uma bagagem a ser compreendida pelo par. E Scott parte de sua "vidinha preciosa e simples", de moleque sem ambição, em direção à superação, ao amadurecimento. O prêmio óbvio, a princesa, é a própria Ramona. A vida adulta é a consequência dos pontos de experiência coletados pelo caminho.
Confunde-se a história simples e bem-humorada com "infantilizada". Preguiça, desconhecimento ou puro preconceito, não importa. Os sentimentos e as metafóricas situações em Scott Pilgrim são absolutamente reais, algo que o cinema de gêneros com apelo pop teima recentemente em deixar em segundo plano. E daí se o protagonista é capaz de feitos incríveis e trafega por mundos fantásticos? Se o amor que ele diz sentir não é demonstrado na tela, corre-se o risco de parecer tão empolgante quanto uma cópia em alta definição da Mona Lisa.
Scott Pilgrim Contra o Mundo é, assim, um épico pós-moderno para a geração criada dentro de casa. Uma imperdível celebração da cultura pop e dos relacionamentos complicados.
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