Zhang Yimou aprende com os irmãos Coen a não se levar tão a sério
26 de Setembro de 2010
San Qiang Pai An Jing Qi
China , 2010 - 95 minutos
Policial
Direção:
Zhang Yimou
Roteiro:
Xu Zhengchao, Shi Jianquan,
Ethan Coen, Joel Coen
Elenco:
Sun Honglei, Xiao Shenyang,
Yan Ni
China , 2010 - 95 minutos
Policial
Direção:
Zhang Yimou
Roteiro:
Xu Zhengchao, Shi Jianquan,
Ethan Coen, Joel Coen
Elenco:
Sun Honglei, Xiao Shenyang,
Yan Ni
Se o cinema de Yimou perigava calcificar em 2006, quando ele voltou a filmar coreografias de China imperial em A Maldição da Flor Dourada, agora o diretor executa um golpe esperto. Traz um gênero típico dos EUA, como o policial de beira de estrada, para dentro do seu imaginário colorido, ridiculariza as solenidades que ajudara a defender naqueles épicos dos anos 2000 - e, por meio do humor autoreferencial, rejuvenesce a sua obra.
A trama segue a mesma. Dono de bar desconfia que sua mulher o trai com um dos seus empregados, e decide contratar um detetive para matá-los. Aqui, o bar vira um restaurante de lamen (a única firula de artes marciais a que Yimou se permite é na hora de abrir a massa do macarrão). Os atos de carregar um revólver ou acender um cigarro continuam cheios de peso e significado - mas exigem métodos rústicos anteriores à invenção do isqueiro ou dos cartuchos industriais. Até o barulho de uma viatura policial Yimou consegue emular, pra caracterizar a sua cavalaria de oficiais de azul.
A troca de referências se encaixa com graça no cenário cartunesco que o diretor concebe, de personagens histriônicos e paisagens que parecem ilustradas com aquarela. As brincadeiras por si só, porém, não sustentam o filme. A Woman, A Gun and A Noodle Shop começa a ficar mais interessante (assim como o filme de 1984) quando a trama leva aos desencontros do marido, da mulher, do amante e do detetive. Quem viu qualquer filme dos irmãos Coen vai identificar o engenho: o acaso tem papel dominante e qualquer coincidência, por menor que seja, pode redefinir o futuro dos personagens.
A diferença aqui é que Yimou trata essa rede de acasos com desconfiança. Não só ironia e senso de absurdo, sempre presentes com os irmãos Coen, mas também com escárnio. Do universo fantástico de Yimou poderia se esperar, por exemplo, que um morto levantasse da cova a qualquer momento. Não faria sentido num filme policial "sério", mas aqui seria não só aceitável como até aguardado.
Aí, a participação do detetive é crucial, com seu vaivém cheio de preciosismos, tentando ocultar provas e apagar rastros. No meio de tantos tipos caricatos, o detetive se mantém sempre sisudo, impassível. Parece ser a única pessoa que leva a trama a sério. É como se fosse um personagem dos filmes anteriores de Yimou, com toda a sua solenidade, inserido nesse novo ambiente paródico. O choque é evidente, e o efeito cômico, duradouro.
Zhang Yimou aprendeu com os Coen, enfim, que às vezes o melhor é não se levar a sério demais.
