Crítica: Bróder

Em seu primeiro longa, Jeferson De livra a questão racial do sectarismo

06 de Outubro de 2010


Bróder

Brasil , 2010 - 93 minutos
Drama
Direção:
Jeferson De
Roteiro:
Newton Cannito e Jeferson De
Elenco:
Caio Blat, Jonathan Haagensen,
Silvio Guindane, Cassia Kiss,
 Ailton Graça, Cintia Rosa,
Lidi Lisboa, Du Bronks,
Eduardo Acaiabe
bróder
festival do rio
caio blat
Bróder (2010) começa num quartinho no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Amanhece, mas está escuro ali, e um vulto se move para atender o celular. As gírias e as palavras mastigadas sugerem o estereótipo do negro da periferia, mas sai do quarto para a luz ninguém menos que Caio Blat. Sai meio tropeçando no overacting, é verdade, mas compramos rápido a ideia de que Caio Blat mora no Capão.
Todo o filme do roteirista e diretor Jeferson De, sua estreia em longas-metragens depois de uma premiada carreira nos curtas, monta-se em cima dessa ideia da inadequação, mas não de forma ostensiva. A sacada do título - em São Paulo se diz "mano", e não "bróder" - já sugere essa tentativa torta de aproximação, de procurar na comunidade um lugar para si.
Blat interpreta Macu, que mora com a mãe Sônia (Cássia Kiss) na casa do seu padrasto, Francisco (Aílton Graça). É aniversário de 23 anos de Macu, e dois amigos de infância chegam para a festa: o astro do futebol Jaiminho (Jonathan Haagensen) e o pai de família Pibe (Silvio Guindane). Ironicamente, embora Jaiminho e Pibe tenham muito mais o "perfil" do Capão, Macu é o único que ainda mora na periferia.
A trama se passa ao longo desse dia, até a manhã seguinte, quando Macu, dividido entre a fidelidade aos antigos amigos e a tentação de trabalhar para o crime, não poderá mais adiar sua decisão. Bróder tem o mérito de não banalizar esse conflito (embora seja mais do que evidente, como em toda jornada de redenção, de que lado ele ficará). O crime assusta, mas é etéreo. Com exceção de um ônibus queimado no começo da Av. Juscelino Kubitschek - como que divisando à beira da Marginal os limites entre a periferia e o centro - Macu nunca tem direito a dimensão do que significaria aderir à violência. O que Macu conhece é a linguagem, as bravatas, o discurso.
A diferença entre ter pose e ter atitude está no centro de Bróder. Cineasta de reafirmação da cultura negra, o paulista De, natural de Taubaté e formado em cinema pela USP, criou em 2000 o manifesto Dogma Feijoada para defender a representação do negro no cinema nacional. Ao eleger Blat o seu protagonista "negro" em Bróder, com apoio de Ferréz na pesquisa e aval de Mano Brown na trilha sonora, Jeferson De tira da questão racial o que ela tem de sectária. Sua transição para os longas-metragens, exibida em Berlim e premiada em Gramado, é também um grande passo para esse debate.
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