Crítica: O Homem do Lado

Típica comédia de vizinhos se revela uma aguçada crítica à nossa noção de segurança

07 de Outubro de 2010


O Homem do Lado

El Hombre de al Lado
Argentina , 2009 - 101 minutos
Comédia / Drama
Direção:
Mariano Cohn, Gastón Duprat
Roteiro:
Andrés Duprat
Elenco:
Rafael Spregelburg, Daniel Aráoz,
Eugenia Alonso, Inés Budassi
homem do lado
festival do rio
hombre de al lado
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A única residência que o arquiteto suíço Le Corbusier assinou na América, no número 320 do Boulevard 53, na cidade de La Plata, ao sudeste de Buenos Aires, é o cenário da comédia dramática argentina O Homem do Lado (El Hombre de al Lado, 2009). O filme de Mariano Cohn e Gastón Duprat faz por vias tortas uma homenagem ao design cerebral do mestre do modernismo.
Mora na casa, com esposa e filha, o designer Leonardo (Rafael Spregelburd). Uma das primeiras imagens que temos de Leonardo é a foto que estampa o seu site oficial. Vive da aparência do sucesso, enfim, esse poliglota de óculos de armação grossa, que desenha e coleciona mobiliário e objetos de vanguarda para combinar com sua casa modernista. O problema, como sempre, são os outros.
Começa no vizinho uma reforma. Pedreiros abrem na parede que dá vista para a sala de Leonardo um rombo. O recém-chegado Victor (Daniel Aráoz) quer uma janela para aproveitar os raios de sol, diz, mas Leonardo surta, acha a janela uma invasão de privacidade. O fato de Victor ser o típico machão cafona, que toma chimarrão numa cuia feita de pé de bode, só inflama a cizânia. Desse choque de opostos, típico de comédias sobre vizinhos, o filme tira o seu humor de constrangimento.
As situações armadas para ressaltar as caricaturas dão constantemente a impressão de que estamos sendo levados a simpatizar com Victor e odiar Leonardo só para termos nosso tapete puxado no final da história. Essa impressão se confirma, mas O Homem do Lado não é vulgar em sua manipulação. A fotografia, premiada no Festival de Sundance este ano, tem nuanças que dão aos personagens suficiente humanidade.
Victor, por exemplo, por ser um tipo sem meias palavras, é sempre filmado frontalmente. Quando bate à porta de Leonardo, a câmera se coloca no ombro do designer e fica o tempo todo fechada no close-up em Victor. Em oposição, Leonardo "se esconde" da câmera. Mexe num frango na cozinha e o armário tampa seu rosto. Sua imagem no espelho no quarto da filha se espelha em pedaços. Quando se revela, falando mal de um amigo, Leonardo o faz no escuro.
O personagem está cercado de "ruídos" (o kitsch da camiseta do Kiss da empregada e dos passos de dança da filha, por exemplo), mas cria para si uma fantasia clean - que inclusive o impede de lidar de frente com os problemas que não envolvam sua superioridade hierárquica. O enquadramento fundamental: Leonardo em primeiro plano, só sua silhueta, diante do janelão que revela as cores do parque arborizado ao fundo.
Essa forma como Cohn e Duprat enquadram o personagem e o exterior é essencial para entender o isolamento, travestido de bem estar, que as pessoas se impõem hoje em nome de uma suposta segurança. O Homem do Lado homenageia, no fim, não a arquitetura de Le Corbusier e sua defesa da funcionalidade, mas seu senso de urbanismo.
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